sexta-feira, 22 de junho de 2007

A imaginação sociológica: Uma leitura de C. Wright Mills


A consciência humana, latu sensu, está limitada à capacidade de visão do homem comum, circunscrito ao seu derredor. Em função disto, o homem comum não define seus interesses em termos de transformação históricas, pois não se apercebe, na maioria das vezes, das imbricações entre suas vidas e as estruturas sociais devido à ausência de uma qualidade intelectual básica que lhe permita identificar a teia de relações entre a biografia e a história. Tal dificuldade é justificada pela rapidez com que ocorrem as transformações na sociedade, transformações estas que atinge o homem numa escala global.

“A própria evolução da história ultrapassa, hoje, a capacidade que têm os homens de se orientarem de acordo com os valores que amam” (p. 11)

Não é de estranhar que os homens comuns sintam dificuldade de enfrentar a quebra de paradigmas proporcionada pela ampliação dos horizontes decorrentes dessas mudanças. É um período no qual se tem informação sobre tudo e discernimento sobre nada. Contudo, nesse processo, informação e discernimento não são o suficiente para preparar os homens para lidar com o sentimento de inadequação decorrente das transformações. O que se faz necessário, segundo Mills é a imaginação sociológica:

“uma qualidade de espírito que lhes ajude a usar a informação e a desenvolver a razão, a fim de perceber, com lucidez, o que está ocorrendo no mundo e o que pode estar acontecendo dentro deles mesmos.” (idem)

A imaginação sociológica permite a identificação dos reflexos de questões estruturais da sociedade sobre as perturbações na vida individual. Através da imaginação sociológica pode-se entender com mais facilidade a interação do indivíduo com o meio social, uma vez que torna-se passível de se ver, com maior nitidez, as influências deste sobre a trajetória pessoal.

Três elementos fundamentais compõem a imaginação sociológica: a História, a biografia e a estrutura social. Para compreender a experiência individual e avaliar a si mesmo dentro de seu tempo, o indivíduo deve entender como a sociedade veio a ser o que é, como se dá o seu processo de mudança e como sua história está sendo feita. Outrossim, cumpre também analisar a natureza da “natureza humana” em sociedade, que tipos de povos a habitam em particular, bem como as várias institucionais existentes se operam, quais são dominantes, o que mantém sua coesão e o que as impulsionam a mudar. A partir desses questionamentos, segundo Mills, é possível experimentar uma “transavaliação de valores”.

“Para compreender as modificações de muitos ambientes pessoais, temos necessidade de olhar além deles. E o número e variedade dessas modificações estruturais aumentam à medida que as instituições dentro das quais vivemos se tornam mais gerais e mais complicadamente ligadas entre si. Ter consciência da idéia da estrutura social e utilizá-la com sensibilidade é ser capaz de identificar as ligações entre uma grande variedade de ambientes em pequena escala”.(p.17)

Na medida em que os valores coletivamente aceitos são ameaçados vê-se a emergência das principais questões públicas de uma época. Considerando, porém, as limitações no alcance sociológico, é possível que as pessoas não possuam consciência dos valores aceitos, o que torna inócua a ameaça. Este sentimento de indiferença, se generalizado, torna-se então apatia. Este é um dos problemas fundamentais da sociedade de massa, pois tais povos tornam-se apolíticos. Há ainda a possibilidade de não se ter nenhuma consciência de valores ameaçados e ainda assim sentir a pressão da ameaça. Esta inquietação, bem como a já citada indiferença, marcam, segundo Mills, a época atual. E embora Mills tenha escrito este livro em 1959, suas observações permanecem atuais.

O autor faz ainda um contraponto com a década de 30, considerada uma idade política., na qual os valores ameaçados eram reconhecidos, bem como as contradições estruturais que os punham em risco. Este contraponto torna ainda mais evidentes os problemas de nossa época, definidos por uma preocupação, sobretudo, com a qualidade da vida individual ou ainda com a possibilidade de continuar existindo vida individual.

“Para os que aceitam valores herdados, como razão e liberdade, é a inquietação em si que constitui o problema; é a indiferença em si que constitui a questão”.(p.18)

Diante desse quadro a principal tarefa intelectual e política do cientista social é revelar os componentes dessa inquietação e indiferença, as quais eram manifestas principalmente pela literatura, base da cultura humanista. Todavia, esta, de acordo com o autor, tornou-se uma “arte menor”, incapaz de concorrer em comoção com os acontecimentos com a realidade muitas vezes trágica e estarrecedora que a realidade histórica e os fatos políticos contemporâneos apresentam. Sobretudo, não compete à arte a formulação de questões capazes de auxiliar o homem na superação desses sentimentos de inadequação. A abertura para novos começos, segundo Mills, é a promessa da Ciência Social, a qual não pode abdicar de uma análise cultural e política como parte de seu trabalho diário.

Diante da controvérsia sobre a natureza das Ciências Sociais, a proposta do autor é analisar os diversos estilos de trabalho, a fim de ampliar os horizontes sobre a concepção de procedimentos de cada um deles, identificando o que melhor pode servir à imaginação sociológica. Três são as principais tendências: O empirismo abstrato, a grande teoria e a análise social clássica. Todas elas correm o risco de sofrer deformações, por isso a necessidade de esclarecer os seus métodos.

“Dominar o método e a teoria é tornar-se um pensador consciente de si, um homem que trabalha e tem consciência das suposições e implicações do que pretende fazer. Ser dominado pelo método é simplesmente ser impedido de trabalhar, de tentar, ou seja, de descobrir alguma coisa que esteja acontecendo no mundo.” (p.133)

Segundo Mills, os riscos do empirismo repousa numa análise sub-histórica. O dado empírico revela uma visão abstrata da vida cotidiana dos universos sociais, alimentada por variáveis muitas vezes imprecisas, se analisadas fora do fundamento das estruturas histórico-sociais. Outro problema do empirismo abstrato é a dificuldade de eleger problemas substanciais, devido à abundância de fatos. A única exigência é a verificação, a qual se enquadra em processos correlatos e estatísticos. Contudo, fatos acumulados não fazem uma ciência social. A grande teoria, por sua vez, apresenta uma visão bastante estática e abstrata dos componentes sociais, incorrendo ainda no risco de abandonar a História, elaborando conceitos sobre outros conceitos igualmente abstratos. Em contrapartida, o cientista social clássico evita esquemas rígidos de procedimentos, nem se inibe pelos métodos e técnicas, adotando o modo do artesão intelectual. Atenta para a aplicação de certos métodos a determinados problemas, bem como de certas teorias a dados fenômenos. Representa uma medianiz entre o empirismo abstrato e as grandes teorias, pois direciona sua abstração no sentido das estruturas sociais e históricas.

Destarte, o cientista social clássico identifica os procedimentos mais adequados para responder às indagações dos problemas eleitos, problemas esses substantivos. O alinhamento dos problemas, por sua vez, depende dos métodos, teorias e valores. Quanto maior a consciência dos valores envolvidos e dos riscos a que estão ameaçados, mais substantivado estará o problema. Seus escritos revelam uma grande preocupação com dois valores considerados fundamentais, razão e liberdade, por serem co-extensivos com a principal tendência da sociedade contemporânea, a tendência à centralização, à ampliação de organizações burocráticas vastas e do controle do poder nas mãos de uma elite muito pequena.

Considerando que o progresso científico é cumulativo, Mills ainda ressalta a importância de uma “objetividade” na ciência. Em seus escritos, ele interpreta o mundo por uma perspectiva muito influenciada por Max Weber, defendendo uma visão holística de sistemas socioculturais, interdependentes, os quais têm efeitos profundos sobre os valores humanos. Desta forma, Mills sugere que as questões e preocupações sociais sejam formulados como problemáticas científicas, a fim de dar visibilidade à razão, como um valor relevante para uma sociedade democrática livre.

MILLS, C. Wright. A Imaginação Sociológica, Rio de Janeiro. Zahar, 1982.

11 comentários:

Noel disse...

não acredito que este seu ótimo texto não recebeu nenhum comentário até hoje. as pessoas não sabem o que estão perdendo, perdoai-os. isso prova que C.W.M. realmente está certo em suas afirmações sobre o intelecto dos homens.

beijo grande!

Chagas disse...

Muito bom o texto. Mereceria uma página nas edições que se publicam aqui do livro.
Tenho uma edição de 1972 há uns dez anos. Só agora estou lendo o livro.
A autor está de parabéns.

Cleiton do Rego disse...

Ótimo texto, bom de ler, de entender. A autora está de parabéns, me ajudou a entender ainda mais a imaginação sociológica que Mills aborda.

Monalisa disse...

o que esperar dessa moderna liquida, de valores liquidos, onde dia apos dia dilacera os valores e "verdades", ponde em perspectivas outrs necessidades... necessidades estas ligadas a mentes alimentadas por uma realidade consumista e alienada, que deposita incessantemente a "felicidade" na obtençao de bens materiais!?

Isa disse...

Muito interessante mesmo. Estava preguiçosa de reler Mills e seu texto me lembrou em detalhes. Parabéns e obrigada.
Isa

mayor destino disse...

ha vários cientistas sociais que esperam que a sociedade os reconheça, mas o que se trata na verdade é q o cientista social deve trabalhar e investigar de forma cientifica todos os factos que ameaçam os valores fundamentais de uma sociedade, posteriormente, alcançará então o reconhecimento da sociedade...é preciso por em prática a teoria do mills...grande texto, pois, a sociedade clama pelos cientistas socias

Dalva atesá disse...

Causa inquietação saber que a preocupação é a mesma a tanto tempo...

Dalva atesá disse...

Causa inquietação saber que a preocupação é a mesma a tanto tempo...

Antonio Carvalho disse...

só queria dizer que seu texto é bem legal, poderia dizer que nos ajuda a melhor degustar Mills.

Clydes disse...

Excelente resumo; traduziu a preocupação fundamental de W. Mills: a sociedade democrática, esmagada pela burocracia moderna. Também era a preocupação de Max Weber.

Renata Melo disse...

Excelente resumo, de fácil entendimento, objetivo, conciso e fiel a obra.