Mostrando postagens com marcador metodologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador metodologia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Dinâmica da Pesquisa em Ciências Sociais: Os pólos da prática metodológica.

O campo científico é estruturado a partir de uma metodologia geral em quatro pólos distintos, complementares e interacionais, enquanto eixos de uma mesma prática metodológica: o pólo epistemológico, o pólo teórico, o pólo morfológico e o pólo técnico.

O pólo epistemológico exerce uma função de vigilância crítica. Pode ser comparado a um motor interno, de algum modo obrigatório, da investigação do pesquisador. Neste campo são colocadas questões epistemológicas que contribuem na resolução de problemas práticos e na elaboração de soluções teóricas válidas. O problema parte do questionamento filosófico acerca de como podemos ter um conhecimento exato do mundo que nos cerca. A alternativa proposta é investigar através do fenômeno avaliativo, respostas, objetivas ou subjetivas, para o seu atingimento parcial ou total, bem como para sua melhor compreensão.

Analisando os pólos epistemológicos, os Bruyne et alli tentam situar a dialética “numa metodologia geral, indicando as extrapolações que ela pode suscitar” ( p. 65) a partir de três aspectos: o aspecto ontológico, o filosófico e da metodologia das ciências sociais. O positivismo recusa a idéia de considerar, na filosofia, uma verdadeira teoria do conhecimento ou uma epistemologia. Mas a epistemologia não pode estar completamente separada da filosofia, pois todo pesquisador torna-se filósofo devido aos problemas que encontra em seus trabalhos científicos. Desde que o homem filosofa, indaga sobre a essência do conhecimento e essa trajetória revela um processo de concepção de erros.

“A dialética quer pensar a relação do pesquisador com seu objeto do conhecimento, das ciências com o real (...) Ela recusa as abstrações da lógica formal e transcendental, mas recusa também os “fatos empíricos” da experiência imediata. (...) O método dialético, portanto, é o oposto em seu projeto a todo método de tipo positivista” (p. 73-74)


A fenomenologia, por sua vez, posiciona-se com uma atitude reflexiva, consciente dos limites epistemológicos de sua abordagem, rompendo com as pré-noções que povoam o senso-comum, realizando uma redução fenomenológica, a qual representa o engajamento no mundo objetivo a fim de ressaltar sua relação com este, objetivando a compreensão do objeto de pesquisa do cientista social.

“ A reflexão fenomenológica guiará o pesquisador quando se tratar de colocar problemas, hipóteses, de destacar conceitos com vistas à elaboração teórica; ela poderá garantira fecundidade sempre renovada da pesquisa” (p. 79)

A contribuição e o papel do eixo epistemológico estão não só em considerar a epistemologia a margem das ciências e uma reflexão sobre os seus princípios, os seus fundamentos e a sua validade; mas também em admitir o caráter intra-científico da epistemologia, estabelecendo-se as condições de objetividade dos conhecimentos científicos como elemento intrínseco à própria ciência.

O pólo teórico guia a elaboração das hipóteses e a construção dos conceitos. É o lugar da formulação sistemática dos objetos científicos. Sua ambiência, porém, é um lugar de convergência dos outros pólos metodológicos. Uma teoria será válida na medida em que possa ser ao mesmo tempo, pertinente, coerente e testável, sem a pretensão obsessiva de pensar tudo. A teorização do estudo científico deve ser concretizada a partir de um quadro de referência ou uma matriz disciplinar.

“ A verdadeira função da teoria, concebida como parte integrante do processo metodológico, é a de ser o instrumento mais poderoso da ruptura epistemológica face às pré-noções do senso-comum, devido ao estabelecimento de um corpo de enunciados sistemático e autônomo, de uma linguagem com suas regras e dinâmicas próprias que lhe asseguram um caráter de fecundidade” (p. 102)

O pólo morfológico é a instância que anuncia as regras de estruturação, de formulação do objeto científico, impõe-lhe certa figura ou modelo, certa ordem entre seus elementos, articulando os conceitos, os elementos e as variáveis descritas nos pólos epistemológico e teórico e permitindo a construção do objeto científico através de modelos aplicativos

O pólo técnico controla a coleta dos dados, esforça-se por constatá-los para poder confrontá-los com a teoria que os suscitou. Exige precisão na constatação, mas sozinho, não garante sua exatidão. Os procedimentos de coleta das informações são tratados neste eixo metodológico. As pesquisas incumbem-se da coleta e análise dos dados em função dos quais elabora seus fatos. O pólo técnico é o momento da observação, do relato dos fatos, enquanto o pólo teórico é o momento da interpretação e da explicação destes fatos. O pólo epistemológico, por sua vez, está diretamente ligado a coleta de dados face a sua tarefa de vigilância reflexiva a respeito da formulação de seu objeto.

BRUYNE, Paul de; HERMAN, Jacques e SCHOUTHEETE, Marc de. Dinâmica da Pesquisa em Ciências Sociais: Os pólos da prática metodológica. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.

sábado, 23 de junho de 2007

Análise de discurso


Não existe apenas uma linha de análise de discurso; existem muitos estilos diferentes com enfoques variados, a partir de diversas tradições teóricas, porém todas reivindicando o mesmo nome. O que esses diferentes estilos parecem ter em comum, ao tomar como objeto o discurso, é que partilham de

“uma rejeição da noção realista de que a linguagem é simplesmente um meio neutro de refletir, ou descrever o mundo, e uma convicção da importância central do discurso na construção da vida social” (p.244)

A análise de discurso é uma disciplina de interpretação fundada pela intersecção de epistemologias distintas, pertencentes a áreas da lingüística, do materialismo histórico e da psicanálise. Essa contribuição ocorreu da seguinte forma: da lingüística deslocou-se a noção de fala para discurso; do materialismo histórico emergiu a teoria da ideologia; e finalmente da psicanálise veio a noção de inconsciente que a AD trabalha com o de-centramento do sujeito.

O processo de análise discursiva tem a pretensão de interrogar os sentidos estabelecidos em diversas formas de produção, que podem ser verbais e não verbais, bastando que sua materialidade produza sentidos para interpretação; podem ser entrecruzadas com séries textuais (orais ou escritas) ou imagens (fotografias) ou linguagem corporal (dança).

A AD trabalha com o sentido e não com o conteúdo do texto, um sentido que não é traduzido,mas produzido; pode-se afirmar que o corpus da AD é constituído pela seguinte formulação: ideologia + história + linguagem. A ideologia é entendida como o posicionamento do sujeito quando se filia a um discurso, sendo o processo de constituição do imaginário que está no inconsciente, ou seja, o sistema de idéias que constitui a representação; a história representa o contexto sócio histórico e a linguagem é a materialidade do texto gerando “pistas” do sentido que o sujeito pretende dar. Portanto, na AD a linguagem vai além do texto, trazendo sentidos pré-construídos que são ecos da memória do dizer. Entende-se como memória do dizer o inter-discurso, ou seja, a memória coletiva constituída socialmente; o sujeito tem a ilusão de ser dono do seu discurso e de ter controle sobre ele, porém não percebe estar dentro de um contínuo, porque todo o discurso já foi dito antes.

A língua não é transparente e homogênea como muitas vezes aparenta ser; isto faz com que ela seja capaz de equívoco, de falha, de deslizes. O equívoco é contra a idéia do sentido único do enunciado; que permite leituras múltiplas. O sentido não está agregado à palavra, é um elemento simbólico, não é fechado nem exato,portanto sempre incompleto; por isso o sentido pode escapar. O enunciado não diz tudo, devendo o analista buscar os efeitos dos sentidos e, para isso, precisa sair do enunciado e chegar ao enunciável através da interpretação.

Partindo do princípio que a AD trabalha com o sentido, sendo o discurso heterogêneo marcado pela história e ideologia, compreende-se que ela não irá descobrir nada novo, apenas fará uma nova interpretação ou uma releitura. Outro aspecto a ressaltar é que a AD mostra como o discurso funciona não tendo a pretensão de dizer o que é certo, porque isso não está em julgamento. Na interpretação é importante lembrar que o analista é um intérprete, que faz uma leitura também discursiva influenciada pelo seu afeto, sua posição, suas crenças, suas experiências e vivências; portanto, a interpretação nunca será absoluta e única, pois também produzirá seu sentido.

Para constituir o corpus para análise representativo de um determinado discurso, cumpre entrevistar os atores sociais fazendo a transcrição da gravação feita. Não há um caminho pronto para efetivar a análise, mas após várias leituras poderão ser identificados eixos temáticos, que emergem num movimento em que o enunciado leva ao enunciável e vice-versa, explorando-se marcas lingüísticas cujo funcionamento discursivo irá trabalhar, fazendo os recortes das formulações nas quais aparece tal ênfase. Cabe informar o enfoque analítico que é dado à pesquisa. Qualquer elemento pode ser estudado enquanto marca lingüística ou marca de discurso, podendo ser selecionadas poucas marcas lingüísticas para interpretação. Na AD não é necessário analisar tudo que aparece na entrevista, pois se trata de uma análise vertical e não horizontal. O importante é captar a marca lingüística e relacioná-la ao contexto sócio-histórico.

Deste modo, várias leituras do texto farão com que o analista do discurso estranhe aquelas palavras ou formas sintáticas, pode ser, que marcam o discurso e se repetem, visualizando assim as marcas lingüísticas no material linguageiro. Também é interessante explicar o motivo que induziu a escolha do recorte sócio-histórico, pois este faz parte das condições de produção do discurso, representadas no corpus em análise, bem como a necessidade de ilustrar as condições da constituição do corpus. Após ter delimitado o eixo temático o analista irá trabalhar com este, o que supõe o estabelecimento de “recortes discursivos”, onde se representam linguagem e situação. O recorte resulta da teoria e é uma construção do analista; no estudo do recorte se busca caracterizar as regularidades na formação discursiva, no confronto com sentidos heterogêneos. As regularidades das marcas lingüísticas que aparecem no discurso fazem parte da identidade do discurso acessado pelo sujeito, trazendo sentidos pré-construídos que figuram na memória do dizer da sociedade.

GRILL, Rosalind. “Análise de discurso” in. Bauer MW, Gaskell G. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. 3a ed. Petrópolis (RJ): Vozes; 2002.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Análise de conteúdo


Dentro da pesquisa social havia uma certa tendência a subestimar os textos como fonte de pensamentos e memórias. Após o advento da internet, contudo, os pesquisadores demonstraram uma renovação do interesse nessas fontes e, conseqüentemente, na análise de conteúdo e suas técnicas.

A análise de conteúdo pode ser definida de forma clara como uma técnica que permite a produção de inferências de um texto focal para seu contexto social de forma objetivada. Sendo uma interpretação, não pode ser julgada de forma absoluta como uma leitura “verdadeira”, ou como única forma de leitura do texto. Deve ser julgada sim, em termos de congruência com a teoria do pesquisador em relação ao seu objeto de pesquisa. Desta forma, o resultado de uma análise de conteúdo é a problemática a ser explicada.

Os procedimentos da análise de conteúdo reconstroem as representações em duas dimensões. Na dimensão sintática, observando-se que a freqüência de uma palavra incomum pode identificar um autor ou público; e na dimensão semântica, observando-se os sentidos conotativos e denotativos: os ditos, os temas, e os julgamentos de valor. Esses procedimentos permitem ao pesquisador traçar e comparar perfis, através de seus valores, atitudes, estereótipos, símbolos e visões de mundo.

A análise de conteúdo permite ainda diferentes estratégias de pesquisa. É possível construir um corpus de texto como um sistema aberto para verificar tendências e padrões de mudança; traçar um quadro comparativo para identificar as diferenças; construir índices a fim de identificar sinais causalmente relacionados a um fenômeno e reconstruir mapas de conhecimento.

Também são múltiplos os direcionamentos da pesquisa de análise de conteúdo, a qual pode ser: um estudo puramente descritivo; uma análise normativa; trans-seccionais; longitudinais ou longitudinais combinadas com outros dados longitudinais.

Embora a análise de conteúdo trabalhe tradicionalmente com textos, suas técnicas também podem ser aplicadas a imagens. Existem dois tipos de texto passíveis de serem trabalhados: os produzidos no processo da pesquisa e os produzidos com outras finalidades. Todos esses textos podem ser indagados para responder aos questionamentos do pesquisador.

Os textos podem ser selecionados através de amostragem. A amostragem pode apresentar três tipos de problema: sua representatividade, o tamanho e a unidade da amostragem e sua codificação. A amostragem estatística oferece um racional para estudar um número limitado de textos, estratificados numa tipologia hierárquica. A amostragem de agrupamento (cluster), por sua vez, seleciona unidades aleatoriamente, por datas. Amostragem aleatória exige uma lista completa para fazer a seleção, considerando que as unidades de amostragem possam ser facilmente substituíveis.

As unidades de amostragem podem ser físicas, o que ocorre comumente; sintáticas; proposicionais ou temáticas (semânticas). Segundo Bauer, “a representação, o tamanho das amostra e a divisão em unidades dependem, em última instância, do problema da pesquisa, que também determina o referencial de codificação”. (p.198)

A codificação e a classificação das unidades de amostra trazem em seu bojo a teoria e o material de pesquisa. O referencial de codificação compara sistematicamente o conjunto de questões, oferecendo respostas dentro de um conjunto predefinido de alternativas, de acordo com o objetivo da pesquisa.

A técnica de análise de conteúdo se compõe de três grandes etapas: 1) a pré-análise; 2) a exploração do material; 3) o tratamento dos resultados e interpretação. A primeira etapa é uma fase de organização, que pode utilizar vários procedimentos, tais como: leitura flutuante, hipóteses, objetivos e elaboração de indicadores que fundamentem a interpretação. Na segunda etapa os dados são codificados a partir das unidades de registro. Na última etapa se faz a categorização, que consiste na classificação dos elementos segundo suas semelhanças e por diferenciação, com posterior reagrupamento, em função de características comuns. Portanto, a codificação e a categorização fazem parte da análise de conteúdo.

BAUER, Martin W. “Análise de conteúdo clássica: uma revisão”. in. Pesquisa qualitativa com som, imagem e texto. 3ª ed. Vozes, Petrópolis, 2004. (p. 189-221)

História Oral


Na tradição historiográfica positivista, os depoimentos e testemunhos orais eram considerados inadequados devido à sua pouca confiabilidade. Entretanto, essa perspectiva mudou a partir da renovação proposta pelo grupo dos Annales, a Nouvelle Historie, na qual há um privilegiamento das histórias do cotidiano e das mentalidades, apropriando-se da interdisciplinaridade para compreender uma determinada história-problema, ressaltando os aspectos sociais, coletivos e comparativos, através da utilização não só de fontes tradicionais, mas de novas fontes como a tradição oral e os vestígios arqueológicos.

Alguns cientistas sociais ainda vêm os depoimentos orais como fontes subsidiárias, através da qual é possível fazer o cotejo das fontes primárias, complementando-as e verificando-as. Outros ignoram a metodologia, a partir de uma visão positivista e etnocêntrica, desconsiderando que todo documento é questionável. Assim, cada vez mais faz-se necessária a análise das fontes, a fim de garantir uma aproximação maior das verdades relativas. Todo documento está sujeito a leituras, assim também estão as fontes da História Oral.

“ Pois é como discurso que a memória evidencia todo um sistema de símbolos e convenções produzidos e utilizados socialmente” (p.47)

Dessa forma, a História Oral permite ao cientista social descortinar visões não estabelecidas pelo status quo, dando palavras a indivíduos que não deixariam nenhum testemunho histórico e, conseqüentemente, resgatar as discussões sobre liberdade e determinismo; estrutura social e ação humana.

Uma problemática presente na História Oral é a seletividade e o esquecimento presentes na memória individual. Cumpre compreender que tanto o silêncio, quanto o esquecimento são indícios significativos para o pesquisador, pois o discurso oral do indivíduo também é parte do discurso social. Através do discurso é possível perceber os ditos e interditos existentes na relação homem-sociedade e como estes influenciam a construção da memória coletiva.

“A credibilidade da fonte oral não deve ser avaliada por aquilo que o testemunho oral pode frequentemente esconder, por sua inexatidão para com os fatos, mas na divergência deles, onde imaginação e simbolismo estão presentes” (p.73)

Deve-se considerar ainda que não há neutralidade na relação entrevistador-entrevistado, porquanto o entrevistador direciona a entrevista para os caminhos que lhe interessam percorrer, já que as memórias são reconstruídas durante o diálogo.

FREITAS, Sônia Maria de. História Oral. Possibilidades e procedimentos. Humanitas. São Paulo, 2002