terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A política do corpo e da folia: Lula, a Acadêmicos de Niterói e a disputa simbólica na Sapucaí

O desfile da Acadêmicos de Niterói com um samba-enredo centrado em Luiz Inácio Lula da Silva não foi apenas um acontecimento carnavalesco: foi um ato simbólico de disputa de narrativas no espaço público. Como em outros momentos da história do carnaval, a avenida virou arena onde memória, política e cultura popular se encontram e entram em conflito.

Do ponto de vista sociológico, o carnaval é um sistema de comunicação coletiva. Ele traduz experiências históricas, dores sociais e esperanças em música, corpo, cor e alegoria. As escolas de samba, oriundas de territórios populares, negros e periféricos, sempre funcionaram como intelectuais orgânicas, no sentido gramsciano: elas interpretam o mundo a partir de baixo e o devolvem em forma estética.

Quando a Acadêmicos de Niterói escolhe a trajetória de Lula como eixo narrativo, ela não está apenas exaltando um indivíduo, mas ativando um símbolo social: o operário que virou presidente; a ascensão dos excluídos ao centro do poder; a polarização política contemporânea; a ideia de projeto popular de país.

O desfile, portanto, não fala só de Lula. Fala sobre o Brasil e suas fraturas. A reação das alas políticas conservadoras segue um padrão recorrente: acusar o carnaval de “politização indevida”, como se a festa fosse ou devesse ser neutra. Essa crítica ignora um dado histórico fundamental: o carnaval nunca foi neutro.

Há aqui uma moralidade seletiva: símbolos nacionais e religiosos já foram apropriados por narrativas conservadoras sem o mesmo grau de indignação. O incômodo surge quando a cultura popular rompe o alinhamento esperado e vocaliza um projeto político contrário ao interesse das elites conservadoras.

Segundo Bourdieu, trata-se de uma tentativa de controle simbólico: definir quem pode falar de política, onde e com qual legitimidade. Quando uma escola de samba fala, o desconforto aumenta porque não é uma fala mediada por elites tradicionais, mas por corpos, ritmos e estéticas historicamente subalternizadas.

As escolas de samba são, gostem ou não, atores políticos coletivos. Elas selecionam temas; constroem memórias; produzem heróis e vilões simbólicos; além de disputarem sentidos sobre o passado e o futuro.

Ao levar a jornada do herói protagonizada por Lula para a avenida, a Acadêmicos de Niterói afirma que o carnaval não é só entretenimento: é interpretação social. A política entra não como panfleto, mas como mito, narrativa e emoção, formas tão legítimas quanto discursos parlamentares ou editoriais de jornal.

Essa postura dialoga diretamente com o legado de Joãozinho Trinta, que compreendia o carnaval como espaço de transgressão consciente. Sua famosa lógica: “quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta é de luxo”, já era, em si, uma crítica às hierarquias culturais e morais. 

Joãozinho transformou a avenida em tribuna popular, onde o excesso, o luxo e o choque visual eram armas políticas. O desfile da Acadêmicos de Niterói se insere nessa linhagem: provoca; divide opiniões;

obriga o público a reagir. E, ao fazer isso, cumpre uma das funções centrais da arte crítica: tirar o espectador da zona de conforto.

O desconforto causado pelo samba-enredo não é sobre “misturar política e festa”. É sobre quem tem o direito de narrar o país. Quando a cultura popular assume esse papel, ela rompe a ideia de que política é monopólio de gabinetes, editoriais ou púlpitos.

O desfile da Acadêmicos de Niterói reafirma algo essencial: o carnaval não pede licença para existir. Ele fala, canta, denuncia e celebra. E, justamente por isso, continua sendo um dos espaços mais vivos de democracia simbólica no Brasil.


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